Monday, May 14, 2012

François Hollande conhece o mundo

Quando François Hollande, acabado de ser eleito próximo Presidente de França, foi interpelado por um jornalista quanto ao idioma que usaria quando encontrasse o Presidente dos EUA, Barack Obama, pela primeira vez, a sua resposta foi reveladora. “Falo inglês mais fluentemente do que o antigo Presidente”, insistiu o líder socialista, referindo-se ao cessante Nicolas Sarkozy. “Mas um Presidente francês deve falar francês!”

Proclamando a sua mestria da língua franca dos assuntos globais, Hollande afirmou-se como um estadista moderno, enquanto sugeriu que a França permanecerá tão influente quanto possível na cena internacional. Na verdade, ele proclamou o seu compromisso quanto ao internacionalismo e multilateralismo. De maneira a permanecer um país que compete acima da sua categoria em termos diplomáticos, é do interesse da França operar através de organizações internacionais em vez de depender de relações bilaterais.

Hollande também está consciente de que, por razões históricas e culturais, o papel internacional da França tem que ser diferente do de outros países. No seu livro Changer de destin (Mudar de Destino), publicado em Fevereiro, afirma que a mensagem da França continuará a ser uma mensagem universal – uma atitude reminiscente do nascimento em 1789 da República Francesa, que, como os Estados Unidos, foi originariamente concebida como o triunfo da liberdade e da democracia.

Ao contrário da França, no entanto, o termo “socialista” é um epíteto para a maior parte dos americanos. Mas esta poderá ser uma fonte de força para Hollande, que, como novo líder sem experiência de política externa, terá que provar a sua capacidade através da acção. E aqui, Obama, em particular, cedo compreenderá que Hollande não pretende encetar mudanças avassaladoras. Pelo contrário, a sua intenção será aparecer como um parceiro fiável e pouco surpreendente.

É improvável que Hollande seja menos amigável com a América do que foi Sarkozy, considerado por muitos como o Presidente francês mais pró-EUA. Hollande apoiou a intervenção militar na Líbia em 2011, e aderiu à condenação do regime do Presidente sírio, Bashar al-Assad. Um dos seus aliados políticos mais próximos declarou recentemente que, caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprove uma intervenção militar na Síria, a França “poderia perspectivar” participar nesse esforço.

Hollande também apoia uma posição forte relativamente ao Irão e, quanto ao conflito israelo-palestiniano, o seu livro indica que ele subscreve os “parâmetros Clinton” – dois estados com fronteiras estáveis e um estatuto para Jerusalém que seja aceitável para ambos os lados. Quanto às relações entre a França e o mundo árabe, podemos estar certos que Hollande concordaria com o ardor pró-envolvimento do discurso de Obama em 2009 no Cairo.

Em último lugar, mas não menos importante, Hollande não deverá questionar a decisão tomada por Sarkozy em 2009 de reintegrar a França no comando militar da OTAN. Essa decisão permanece controversa em França, mesmo entre os socialistas, mas Hollande está bem ciente das fraquezas de uma política de defesa europeia que simplesmente não pode competir com a OTAN.

De qualquer modo, na Cimeira da OTAN em Chicago no fim de Maio, Hollande confirmará o seu voto de retirar as tropas francesas do Afeganistão até ao fim de 2012, dois anos antes do planeado pela OTAN (embora reconheça a necessidade de negociar os detalhes práticos). Este será um teste importante à capacidade de Hollande de lidar eficazmente com aliados.

O segundo teste à sua capacidade de negociar com outros líderes será no seio da Europa. Uma das propostas mais ambiciosas da sua plataforma eleitoral consistia num pedido para renegociação do novo “pacto fiscal” da União Europeia, apoiado por todos os estados-membros com a excepção do Reino Unido e da República Checa. Inspirado pela chanceler alemã, Angela Merkel, a aprovação do pacto era condição prévia à participação alemã no plano de ajuda financeira à Grécia e a outros países da zona euro em apuros.

A proposta de Hollande foi inicialmente encarada como lèse-majesté (NdT: lesa-majestade, em francês no original) contra a Alemanha. Agora todos os líderes europeus – de Mario Monti em Itália a Mariano Rajoy em Espanha e Elio Di Rupo na Bélgica – concordam na necessidade de fazer reviver a economia europeia. A eles juntam-se Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, o presidente do Conselho da UE, Van Rompuy, e, também, a própria Merkel.Merkel e Hollande discutirão a questão central – como fomentar o crescimento económico sem aumentar a dívida pública – a 15 de Maio em Berlim. Embora Merkel se oponha à proposta de Hollande de criação de Eurobonds, tendo em vista o financiamento de projectos industriais, não estão em posição de perder tempo a reconfortar mercados nervosos com mensagens de coesão. Merkel já saudou as ideias de Hollande para um plano de crescimento europeu. Hollande também terá que fazer concessões.

Para os franceses, como para todos os europeus, a UE não é uma entidade estranha, e as suas decisões são parte integral das políticas internas. Neste aspecto, Hollande tem uma hipótese de ser bem sucedido na cena internacional como um líder verdadeiramente pró-europeu. Apenas uma Europa mais forte assegurará o comércio justo com países emergentes, especialmente com a China. Apenas uma Europa mais forte implementará finalmente o princípio da reciprocidade que permitirá proteger as empresas europeias e prevenir a sua deslocalização, que tem sido a principal causa do desemprego.

Numa entrevista recente, Hollande declarou que, “A França não é um país europeu qualquer, e o seu presidente não é um líder mundial qualquer.” Os franceses gostam de ouvir isso. Mas essa afirmação também representa o maior desafio de Hollande: garantir que isto continua verdade no contexto da globalização do século vinte e um.

In Público - Noëlle Lenoir

Traduzido do inglês por António Chagas (Project Syndicate)


Saturday, May 12, 2012

Hollande ganha a França - Michel Rocard

A França concluiu agora as nonas eleições presidenciais por sufrágio universal directo. E, pela primeira vez em 17 anos, após três derrotas consecutivas, a esquerda – representada pelo candidato socialista, François Hollande – regressará ao Élysée Palace. Na verdade, a primeira implicação desta importante eleição é a confirmação do regresso à estabilidade.

A França é o maior país da Europa a ter tanta dificuldade em encontrar o equilíbrio. A revolução de 1789 iniciou um longo período de profunda instabilidade, com dois impérios, três monarquias e cinco repúblicas. Os franceses passaram por 13 constituições em menos de 200 anos.

Com 54 anos de existência, a actual Quinta República é o segundo regime com maior duração desde a revolução. Fala-se, por vezes numa Sexta República, que abordaria questões e dificuldades limitadas, mas reais. Mas a afluência às urnas nas últimas eleições presidenciais (80% na primeira volta e 81% na segunda) não deixa dúvidas: o nosso sistema actual é forte, e nós, franceses, estamos unidos a esse sistema.

Mas a importância primordial do resultado das eleições é o regresso da esquerda ao poder, apenas pela segunda vez em 31 anos. Na verdade, quando François Mitterrand foi eleito em 1981, a esquerda estava fora do poder desde 1957.

Naquela altura, o Partido Comunista ainda tinha poder e mantinha laços estreitos com a União Soviética. A perspectiva de que o Partido podia chegar ao poder numa aliança eleitoral com os socialistas causava receio na oposição. Os socialistas, por sua vez, ainda não tinham deixado cair a sua pele intelectual. O programa político de Mitterrand era um hino ao planeamento económico e, para ele, o mercado livre ainda era sinónimo de opressão.

Actualmente já não existe comunismo internacional, ou, neste caso, comunismo francês. Recordamos ter visto a esquerda governar sem dramas. As duas passagens pelo poder – dez anos com Mitterrand e cinco anos com o primeiro-ministro Lionel Jospin – forçaram a esquerda a conciliar-se com a realidade. A reputação internacional da França não foi prejudicada, e, a nível interno, o desempenho da esquerda, especialmente no que diz respeito ao desemprego, é bem comparável ao de outros governos.

Assim, desta vez não haverá pânico. Pelo contrário, o regresso da esquerda ao poder parece ser um exemplo perfeitamente normal, quase trivial, de alternância no governo.

Na realidade, a vitória de Hollande não foi assegurada por uma viragem para a esquerda por parte do eleitorado, mas sim pela rejeição de Nicolas Sarkozy por parte dos eleitores. Na verdade, o resultado representa uma derrota impressionante e histórica: durante a Quinta República, três presidentes em exercício – Charles de Gaulle, Mitterrand e Jacques Chirac – foram reeleitos após o seu primeiro mandato. Apenas Valéry Giscard d'Estaing não foi reeleito, por estar enfraquecido devido ao longo período de declínio do Gaullismo.

A rejeição de Sarkozy é muito diferente, acima de tudo, é uma questão de estilo. Persiste, entre os franceses, uma espécie de realeza e a nossa constituição tem muitas características de uma monarquia electiva. Com a sua familiaridade excessiva, simplicidade e vulgaridade ocasional, Sarkozy abalou a dignidade da sua função sagrada. Isso não foi perdoado e foi julgado mais severamente do que as deficiências do seu registo presidencial, que não foi muito pior do que o dos seus antecessores.

Além disso, em termos substantivos, as políticas de Sarkozy, especialmente as fiscais, favoreciam as classes mais altas e os mais abastados. Surgiu assim uma combinação poderosa da raiva social e económica, especialmente devido à convicção de que a ganância excessiva de financiadores e banqueiros era a principal causa da crise que surgiu em 2008 e que ainda hoje nos ameaça. Era necessária uma correcção social e política, que se concretizou com uma vingança única para a França.

Mas os cofres do estado estão perigosamente empobrecidos e a França encontra-se agora entre os muitos países cujo peso da dívida compromete a existência da zona euro. Assim, o país está agora sujeito ao discurso da ortodoxia económica, que, ao insistir em que todas as dívidas sejam pagas até o último cêntimo, ignora que a despesa pública é também um motor de crescimento. Qual o montante que terá de ser efectivamente reembolsado? Com a Alemanha como o expoente principal da ortodoxia, o debate está ao rubro. Mas verificamos agora que a austeridade fez cair a Grécia, Portugal e especialmente a Espanha e a Itália numa profunda recessão. O presidente do Banco Central Europeu, bem como o Fundo Monetário Internacional reconhecem a gravidade do problema. Mas o que acontecerá se recusarmos aceitar a posição da Alemanha?

A vitória de Hollande, que afirmou querer "renegociar" o novo "pacto fiscal" da União Europeia apoiado pela Alemanha, vai ter um peso enorme neste debate. Além disso, os socialistas controlam actualmente não só a presidência e o governo, mas também uma maioria no Senado, todas as presidências regionais, 55% dos departamentos do país e a maioria das câmaras municipais das principais cidades. Em menos de dois meses poderão vir a controlar igualmente a maioria da Assembleia Nacional, o que implica uma concentração de poder nunca antes vista na França moderna.

Os socialistas podem governar sem limites, por isso compete-lhes fazê-lo bem. Esta é a incerteza que paira sobre o futuro da França, ou mesmo da Europa.



In Público - Tradução: Teresa Bettencourt (Project Syndicate)


Thursday, March 29, 2012

El lento camino hacia la recuperación

En las últimas semanas, distintas autoridades económicas han decretado que lo peor de la crisis ha quedado atrás. Lo ha dicho la Reserva Federal, el Banco Central Europeo (BCE) o la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económico (OCDE) Eso ha llevado a algunos analistas a desgranar la verdadera fortaleza de los indicadores de actividad económica, el alcance de los brotes verdes, si es que estos existían. Y ahí los expertos de Economismo ven pocas razones para el optimismo. Desde luego, la situación varía mucho entre los distintos actores económicos mundiales, con los países emergentes y Estados Unidos a la cabeza de los resultados positivos. Pero incluso éstos cuentan con serios riesgos que impiden dar por segura esa recuperación. El proceso se presenta largo y lento.

José Carlos Díez, economista jefe de Intermoney, desmenuza los datos. Admite que había una recuperación del comercio international en diciembre y en enero “pero se ha evaporado con los datos de PMI de marzo, que es el principal indicador adelantado del PIB. Tanto China como Alemania o Francia han caído con fuerza y se sitúan de nuevo en niveles de contracción”. El también profesor de la Universidad de Alcalá de Henares recalca que hasta que no se resuelvan los problemas en Europa el riesgo es “japonizar la economía”.

A su juicio, “Estados Unidos nis ha enseñado el camino. hay que parar la recesión con estímulo fiscal en aquellos países no sometidos a la tensión de los mercados y el BCE debe ser más agresivo y comprar deuda directamente”. De lo contrario, advierte, la austeridad sin crecimiento y con deflación de salarios, aumenta el déficit, la deuda pública y privada y nos lleva a la depresión”.

El catedrático de la Universidad de Granada, Santiago Carbó, cree que se ha pecado de un exceso de optimismo y que, aunque “la recesión en Europa puede que no sea tan dura, eso va a depender también de la capacidad de la gobernanza europea para internalizar los riesgos que aún persisten”. Esa capacidad, de momento, ha sido insuficiente. “La inyección de liquidez del BCE ha sido malinterpretada como el estímulo que la eurozona precisaba, cuando en realidad ha sido más una operación de urgencia para dar algo más de margen para realizar deberes que quedan pendientes”.

Por lo que respecta a Estados Unidos, el también asesor de la Reserva Federal de Chicago apunta que, aunque los datos de empleo han sido algo mejores de lo previsto, “la consolidación fiscal está amenazada por un conjunto de compromisos presupuestarios que se han aplazado hasta 2013 pero que probablemente no puedan aplazarse más allá”. Carbó señala, asimismo, que “tampoco parece que las economías emergentes estén exentas de riesgo”, dado el menor crecimiento previsto en China y los rumores de inestabilidad política que le rodean; o los síntomas de sobrecalentamiento en Brasil. “Puede que haya pasado lo peor, pero puede que lo malo dure aún bastante”, concluye.

José Luis Martínez, estratega para España de Citigroup, advierte que para evitar periodos alternos de pesimismo y de optimismo, como ahora, lo mejor es asumir que “nos enfrentamios a un escenario de lento crecimiento mundial en los próximos... ¿cinco o diez años? Lo desconocemos”. sobre esta base, Martínez advierte que las medidas de estímulo monetario llevadas a extremo sólo han servido para calmar a los mercados y “ofrecen tiempo para que lós países lleven a cabo ajustes pendientes”.

A su juicio, la eurozona ha vuelto a entrar en recesión porque los ajustes son agresivos y concentrados en un corto periodo de tiempo, mientras que en Estados Unidos los ajustes se han dilatado en un mayor periodo de años. “Pero demos tiempoa que esta recuperación sea realmente sólida”, apunta. En su opinión, esta crisis nos ha enseñado que “no se puede confundir recuperaciones cíclicas o temporales con un crecimiento sostenible” y que “nunca se puede decir que lo peor ha pasado o que no se aplicarán nuevas medidas expansivas”. Aviso a navegantes.

Guillermo de la Dehesa, presidente del Center for Economic Policy Research (CEPR), descarta de plano que se observen brotes verdes en la eurozona. “Cuando el FMI publique esus nuevas previsiones en las Perspectivas Económicas Mundiales de abril, serán peores que las actuales para el área euro”, augura. De la Dehesa critica que la región siga sin dotarse de instrumentos para hacer frente a la crisis, como un cortafuegos financiero o una regulación bancaria coherente, y urge a los países con superávit corriente un aumento de la demanda interna para evitar una recesión. “Será difícil salir de la recesión sin una política fiscal y monetaria europea que ayude a superarla”, concluye.

“Soy igual de pesimista que los otros participantes”, sentencia Diego Peñarrubia, de la Universidad de Murcia, que considera que la pregunta debería ser “qué podemos hacer para que haya pronto más brotes verdes, en mayor cantidad y más fuertes”. Y eso, en su opinión, sólo pasa por corregir “el profundo desequilibrio entre productividad y costes a lo largo del mundo”. Es decir que los países con menores costes productivos, derivados de los menores derechos sociales y laborales de su población, se acerquen a los estándares occidentales.

Desde la misma Universidad, el profesor José García Solanes advierte que “los brotes verdes con un espejismo, al menos para la economía española” porque “las reformas todavía no han dado sus frutos, el crecimiento del PIB continuará en terreno negativo y el paro seguirá subiendo durante varios trimestres”. Sólo el sector exterior parece mantener su vitalidad, recuerda. A su juicio, aunque la situación en la rona euro es menos sombría, “las palanras de Draghi y Bernanke sobre la situación económica de la zona euro suenan más a palabras de ánimo que a indicios constatados de recuperación”.

García Solanes considera que para que la recuperación económica tome cuerpo sobre bases sólidas y duraderas son necesarias dos tipos de tareas: reestructurar el sistema productivo orientándolo mucho más hacia los mercados internacionales y reducir el tipo de cambio real mediante una devaluación interna con objeto de recuperar la competitividad perdida en el curso de los últimos 12 años. A falta de lo que puedan publicar los nuevos Presupuestos, no tenemos indicios de que el Gobierno español haya tomado iniciativas en estas direcciones”.

El Pais - 30/3/2012

Sunday, March 18, 2012

Lo que significa Grecia

De modo que Grecia ha faltado oficialmente al pago de su deuda con las entidades crediticias privadas. Ha sido una suspensión de pagos ordenada, negociada más que simplemente anunciada, lo que supongo que es algo bueno. Aun así, la historia está lejos de haber terminado. Incluso con este alivio de la deuda, Grecia —como otros países europeos obligados a imponer austeridad en una economía deprimida— parece condenada a muchos años más de sufrimiento.

Y esa es una historia que es necesario contar. Como se señalaba en un informe reciente sobre política económica, durante los dos últimos años la historia griega ha sido “interpretada como una parábola de los riesgos del despilfarro fiscal”. No pasa ni un solo día sin que algún político o experto recite, con el tono de un hombre que transmite una gran sabiduría, la cantinela de que debemos recortar drásticamente el gasto público de inmediato o nos encontraremos con que nos hemos convertido en Grecia; en Grecia, les digo.

Por poner solo un ejemplo reciente, cuando Mitch Daniels, gobernador de Indiana, pronunció la respuesta republicana al discurso sobre el Estado de la Unión, insistió en que “solo estamos a una corta distancia por detrás de Grecia, España y otros países europeos que ahora se enfrentan a la catástrofe económica”. Por cierto, parece ser que nadie le dijo que España tenía una deuda pública baja y un superávit presupuestario justo antes de la crisis; el país está en apuros por culpa de los excesos del sector privado, no del sector público.

Pero lo que la experiencia de Grecia realmente demuestra es que, aunque tener déficits en tiempos de bonanza puede crearle problemas a uno —lo que efectivamente sucedió en el caso de Grecia, aunque no en el de España—, tratar de eliminar los déficits una vez que uno ya tiene problemas es buscarse una depresión.

En estos momentos, las depresiones causadas por la austeridad son visibles en toda la periferia europea. Grecia es el peor caso, con un desempleo que se ha disparado hasta el 20%, al tiempo que los servicios públicos, entre ellos la sanidad, se hunden. Pero Irlanda, que ha hecho todo lo que la tropa de la austeridad quería, está también en una situación terrible, con un paro cercano al 15% y un PIB real que ha caído más de un 10%. Portugal y España pasan por dificultades similares.

Y la austeridad en época de crisis no solo inflige un enorme sufrimiento. Hay cada vez más pruebas de que es contraproducente incluso desde un punto de vista puramente fiscal, ya que la combinación de una disminución de los ingresos debida a una economía deprimida y unas peores perspectivas a largo plazo reduce la confianza del mercado y hace que la carga de la deuda futura sea más difícil de manejar. Hay que preguntarse cómo pueden unos países que están negándole sistemáticamente un futuro a su población joven —el paro juvenil en Irlanda, que antes era más bajo que el de EE UU, ahora alcanza casi el 30%, mientras que está cerca del 50% en Grecia— lograr un crecimiento suficiente para pagar su deuda.

Quienes intentan convertir a EE UU en Grecia son los que piden más austeridad
Esto no era lo que se suponía que debía suceder. Hace dos años, cuando muchos responsables políticos y expertos empezaron a pedir que se pasase del estímulo económico a la austeridad, prometieron grandes beneficios a cambio del sufrimiento. “La idea de que las medidas de austeridad pueden desencadenar una situación de estancamiento es incorrecta”, afirmaba Jean-Claude Trichet, el entonces presidente del Banco Central Europeo, en junio de 2010. En lugar de eso, insistía, la disciplina fiscal inspiraría confianza y eso conduciría al crecimiento económico.

Y cada pequeño indicio de mejora en una economía sometida a la austeridad se ha acogido como prueba de que la política funciona. Se ha proclamado que la austeridad irlandesa era una historia de éxito no solo una, sino dos veces: primero en el verano de 2010 y nuevamente el pasado otoño; en cada ocasión, la supuesta buena noticia se esfumó rápidamente.

Puede que se pregunten qué alternativa tenían países como Grecia e Irlanda, y la respuesta es que no tenían ni tienen buenas alternativas aparte de la de abandonar el euro, una medida extrema que, siendo realistas, sus dirigentes no pueden tomar hasta que todas las demás opciones hayan fracasado (una situación a la que, si quieren saber mi opinión, Grecia se aproxima a toda velocidad).

Alemania y el Banco Central Europeo podrían tomar medidas para hacer que esa solución extrema sea menos necesaria, pidiendo menos austeridad y también haciendo más para impulsar la economía europea en su conjunto. Pero la cuestión principal es que EE UU sí que tiene una alternativa: tiene su propia moneda y puede adquirir préstamos a largo plazo a unos intereses más bajos que nunca, de modo que no tiene que entrar en una espiral descendente de austeridad y contracción económica.

Así que ha llegado la hora de dejar de invocar a Grecia como una historia con moraleja sobre los peligros de los déficits; desde un punto de vista estadounidense, Grecia debería más bien considerarse una historia con moraleja sobre los peligros de intentar reducir los déficits demasiado deprisa, mientras la economía sigue estando profundamente deprimida. (Y sí, a pesar de que últimamente haya habido algunas buenas noticias, nuestra economía sigue estando profundamente deprimida).

La verdad es que si quieren saber quién está en realidad tratando de convertir a EE UU en Grecia, no son los que instan a que haya más estímulos para nuestra economía todavía deprimida; son las personas que exigen que emulemos la austeridad griega, aun cuando no nos enfrentamos a unas restricciones crediticias como las de Grecia, y que de esa forma nos hundamos en una depresión similar a la griega.

Paul Krugman in NYT, a partir do El Pais

Thursday, February 23, 2012

Não culpem o Rio

Estamos há pouco mais de uma década no século XXI, mas um terrível precedente já foi estabelecido: todas as grandes negociações internacionais e principais esforços de cooperação iniciados neste século terminaram, até agora, em fracasso.

Em relação ao meio ambiente, a luta contra o aquecimento global chegou a um impasse, com as três últimas conferências anuais sobre as alterações climáticas das Nações Unidas, em Copenhaga, Cancún e Durban, a falharem na renovação do Protocolo de Quioto.

Da mesma forma, apesar da conferência do ano passado em Paris, para rever o Tratado de Não Proliferação e as subsequentes conversações entre o presidente dos EUA, Barack Obama, e o presidente russo Dmitri Medvedev sobre o desarmamento nuclear, em Nova Iorque, terem feito notáveis avanços, os resultados estiveram muito aquém de garantirem um futuro livre de armas nucleares.

A lista continua: eventos no Médio Oriente acabaram com todas as hipóteses de paz na região, as medidas tomadas para ajudar na recuperação mundial - incluindo as melhorias reguladoras, como a separação entre a banca de retalho e de investimento, a eliminação dos paraísos fiscais e a repressão dos conflitos de interesses das agências de notação de crédito - foram fracas; e as duas últimas reuniões do G-20 registaram falhas graves.

As causas e as partes responsáveis por essas falhas são diversas, mas há uma constante: nos últimos anos, a retórica nacionalista, até mesmo xenófoba, intensificou-se dramaticamente. O patriotismo e a supremacia são hoje em dia enfatizados mais insistentemente, enquanto expressões de desconfiança dos “outros” têm aparecido em toda parte - inclusive no Oceano Ártico, onde o Canadá e a Rússia estão envolvidos em algo a que um especialista apelidou de “Guerra Fria light”.

A consequência da crescente balcanização da comunidade internacional é que as conferências voltadas para o consenso tendem a terminar em impasses. Estas falhas não significam que a maioria das pessoas em todo o mundo não concorde totalmente com estas questões, ou que essas pessoas não estejam preparadas para tomarem decisões atempadas ou até mesmo corajosas. Infelizmente, os sentimentos das pessoas comuns raramente triunfam quando os governos se reúnem.

A conclusão é inevitável: é a procura do consenso absoluto - unanimidade - que está a comprometer o progresso das principais preocupações mundiais. As negociações voltadas para o consenso podem resultar quando um tratado é feito entre vencedores e vencidos - o forte e o fraco. Após a I Guerra Mundial, as potências aliadas tentaram promover a paz internacional através da criação da Liga das Nações. Mas o requisito de unanimidade da Liga deu, efectivamente, o poder de veto a todos os membros e a recusa do Senado dos Estados Unidos em ratificar o seu Tratado condenou o esforço a uma morte prematura.

O fracasso abjecto da Liga para evitar a II Guerra Mundial resultou num segundo esforço para criar cortesia internacional após o fim dos combates. A nova ONU estava muito melhor estruturada do que a sua antecessora e o mundo ganhou uma instituição que promove o debate e a tomada de decisão deliberativa de forma muito mais vigorosa da que é possível em organizações conduzidas pelo consenso.

Mas uma mudança que contradiz o espírito da Carta das Nações Unidas ocorreu. Num esforço para evitar resoluções ou medidas que expõem os seus desacordos, as grandes potências mundiais adoptaram o hábito de organizar debates e conferências em todo o mundo que façam regressar a tomada de decisão por consenso.

De acordo com a Carta das Nações Unidas, o foco principal da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança é promover a segurança internacional. Mas a ONU tornou-se o “operador geral” para as conferências mundiais, agindo como administrador e fornecedor de serviços e instalações (tais como locais e intérpretes) para eventos que oficialmente não fazem parte das suas operações principais. Como resultado, a ONU está a assumir cada vez mais a culpa pelas falhas destas conferências, que só não deixam as questões em aberto, mas também comprometem a autoridade da ONU.

A conferência Rio+20, que examinará os progressos realizados desde a primeira “Cimeira da Terra” no Rio de Janeiro há 20 anos, terá lugar na mesma cidade em Junho deste ano. Concebida com um vasto conjunto de objectivos, incluindo um destaque tanto para a economia verde como para o desenvolvimento sustentável, a conferência parece condenada ao fracasso. Sem consenso, nenhuma acção pode ser tomada e haver consenso será impossível.É claro, há a hipótese de que o mundo reconhecerá o seu dilema no Rio. Se a maioria dos países presentes se atrever a declarar que exigir o consenso é equivalente a impor a paralisia e se insistir em seguir os procedimentos de votação consagrados na Carta das Nações Unidas, poderemos ver progressos enormes.

O aquecimento global e a crise económica estão a ameaçar a segurança internacional. Só isso justifica referir estas questões na Assembleia Geral da ONU, que, ao contrário do Conselho de Segurança, não conhece o poder de veto. Uma declaração forte e um apelo às medidas vinculativas para abordar essas questões seriam então possíveis.

As crises económica e ambiental com que nos deparamos são demasiado urgentes para participar em jogos que dão a aparência de unanimidade internacional. Está mais do que na hora de abordar não só o aquecimento global e a crise económica, mas também o processo de tomada de decisão internacional. Por que não começar com o Rio?

Michel Rocard, in Público

Tradução: Deolinda Esteves/Project Syndicate


Sunday, February 12, 2012

Negociação de alta frequência


A revista New Scientist divulgou esta semana os resultados de uma investigação que mostra como funciona, invisivelmente, a "negociação de alta frequência" nos mercados financeiros. O Expresso ouviu o líder da equipa, o físico Neil Johnson, da Universidade de Miami - por Jorge Nascimento Rodrigues

Há uma "grande guerra", diz-nos o cientista norte-americano Neil Johnson. Ela trava-se hoje nos mercados financeiros. Uma guerra invisível entre algoritmos que torna ainda maior o risco sistémico do capitalismo financeiro. O que se designa por "negociação de alta frequência" (high frequency trading, acrónimo HFT, em inglês), com ordens dadas automaticamente em milésimas do segundo, domina hoje mais de 50% da negociação, em valor, nos Estados Unidos e mais de 30% na Europa, segundo a consultora Tabb Group.

A equipa norte-americana de Neil Johnson, do Departamento de Física da Universidade de Miami, em colaboração com outros cientistas do Centro de Sistemas Complexos da Universidade de Vermont e da empresa Nanex, descobriu como é que esses algoritmos funcionam, como provocam oscilações selvagens, para cima e para baixo, invisíveis nos ecrãs dos traders, que se vão acumulando como fissuras que acabam, num dado momento crítico, por provocar derrocadas colossais, ultra-rápidas, inesperadas, difíceis de prever e evitar pelos humanos. Em suma, estes algoritmos acabam por provocar "cisnes negros", dizem os cientistas, cujo artigo científico que descreve o estudo foi precisamente intitulado "Financial black swans driven by ultrafast machine ecology". E com tanto "cisne negro" no lago, esta multidão acaba por provocar convulsões sistémicas.

Sinais anteriores às derrocadas financeiras

Esta descoberta foi, de imediato, relatada pela revista New Scientist na quinta-feira. O grupo estudou nada menos do que 18.520 "cisnes negros" ocorridos entre 2006 e 2011 com uma duração menor a um segundo e meio (1500 milésimas de segundo). Isto significa que ocorreram, em média, quase 12 eventos extremos deste tipo por cada dia de negociação naqueles seis anos. O período, diz-nos Neil Johnson, "permitiu apanhar não só a geração do colapso financeiro global de 2008 como depois a derrocada relâmpago de 6 de maio de 2010", um fenómeno absolutamente surpreendente, já durante a recuperação bolsista, a partir de março de 2009, do crash de 2008. O evento extremo de maio ficou conhecido pela designação em inglês de "flash-crash" (derrocada instantânea). O número de "cisnes negros" diários disparou uma semana antes da derrocada de 2008 e pouco antes do evento de maio de 2010, mostra o estudo desta equipa de físicos.

As primeiras amostras de surpresas desagradáveis de grande dimensão provenientes da atividade insana da HFT, bem visíveis nas bolsas norte-americanas, ocorreram, de facto, em 2010 no que ficou conhecido como "derrocadas instantâneas", a primeira a 6 de maio (a mais conhecida) e depois outra a 1 de setembro. A de 6 de maio foi acompanhada em todo o mundo quase em direto durante os trinta minutos que decorreu. Entre as 14h30 e as 15h30 de Nova Iorque, o Dow Jones Industrial Average caiu 600 pontos, a mais colossal queda intradiária jamais registada, para de seguida recuperar meteoricamente. O mistério do evento levou os governos americano e britânico a estudar o assunto como questão de segurança e muitos cientistas, sobretudo os ligados à corrente da teoria da complexidade, a mergulharem nesta "prenda" dada pelos mercados financeiros.

Espírito microbial num mundo de piranhas

O que está por debaixo disto é o que Neil chama de uma nova "ecologia" de agentes, um mundo invisível para o comum dos mortais, fruto da desmaterialização brutal ocorrida no sistema financeiro desde a vaga de financeirização dos anos 1980 e 1990. As empresas que detêm estas ferramentas têm uma vantagem estratégica. E serão 400 num universo de 20.000 firmas que operam hoje nestes mercados, segundo um estudo do Aite Group.

Neill pega na célebre expressão de Keynes sobre a "alma animal" (animal spirits) dos investidores para falar, usando uma imagem, de algo bem mais complexo. Estes novos agentes estão impregnados de uma "alma microbial" - "são mais simples do que os humanos ou mesmo os animais, mas muito, muito mais rápidos". "São mais parecidos com a vida inicial na Terra", sublinha-nos. A grande questão é como este mundo digital - que vive numa dimensão de tempo abaixo do segundo - povoado por esta "vida inicial" vai evoluir.

Nem mesmo os grandes mestres de xadrez conseguem ter a rapidez suficiente "para detetar estas situações estratégicas". "Abaixo de 650 milésimas de segundo, só mesmo máquinas", diz-nos Neill Johnson, para depois brincar: "É como um lago cheio de piranhas de diferentes tipos com um nível de concorrência muito feroz". Mas logo acrescenta que não está a fazer um juízo moral: "Não estou a dizer que isto é errado, mas pode ver que este nível de concorrência é feroz - e é isto que exatamente ocorre nos mercados". Por debaixo dos nossos pés e afetando-nos, sem darmos conta - a não ser quando há as derrocadas bolsistas. Quando já é tarde.

Tropas no terreno

Por isso, a ambição destes cientistas é criar algumas ferramentas de previsão e que possam mitigar o risco. O que defrontamos é "um sistema de máquinas em que vemos o declínio da capacidade humana para influenciar os movimentos de preços em escalas de tempo cada vez mais pequenas", diz o físico.

Já não se trata mais do sistema "misto" anterior homem-máquina. Para responder à dinâmica deste novo sistema automatizado, é preciso algo similar às ferramentas de que dispõem os engenheiros espaciais ou aeronáuticos: "olhar para o conjunto microscópico de pequenas fissuras e avaliar se a aeronave está em condições de segurança de continuar a voar". Neil Johnson pensa que os reguladores têm de colocar "tropas no terreno" com essa capacidade. No artigo científico propõem-se três estratégias algorítmicas para tal.

Ler mais: http://aeiou.expresso.pt/ha-uma-grande-guerra-de-algoritmos-no-mundo-financeiro=f703970#ixzz1mA3hpII8

Tuesday, December 27, 2011

Discurso de Helmut Schmidt no Congresso do SPD, 4 de Dezembro de 2011, Berlim

Discurso «A Alemanha na e com a Europa», Helmut Schmidt, ex-chanceler, no Congresso ordinário do SPD, Berlim, 4 de Dezembro de 2011


Queridos Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores!

Deixai-me começar com uma nota pessoal. Quando o Sigmar Gabriel, o Frank-Walter Steinmeier e o meu Partido me pediram mais uma vez uma contribuição, gostei de recordar como há 65 anos eu e a Locki, de joelhos no chão, pintavamos cartazes para o SPD em Hamburgo-Neugraben. Na verdade tenho de confessar desde já: no que diz respeito a toda a política partidária, já estou para além do Bem e do Mal, por causa da minha idade. Há muito que para mim, em primeiro e em segundo lugar, se encontram as tarefas e o papel da nossa nação no indispensável âmbito união europeia.

Simultaneamente estou satisfeito por poder partilhar esta tribuna como o nosso vizinho norueguês Jens Stoltenberg, que no centro de uma profunda infelicidade da sua nação nos deu a nós e a todos os europeus um exemplo a seguir de direção liberal e democrática de um estado de direito.

Enquanto homem já muito velho, penso naturalmente em longos períodos temporais – quer para trás na História, quer para a frente na direção do desejado e pretendido futuro. Contudo, não pude dar há alguns dias uma resposta clara a uma pergunta muito simples. Wolfgang Thierse perguntara-me: «Quando será a Alemanha, finalmente, um país normal?» E eu respondi: num futuro próximo a Alemanha não será um país «normal». Já que contra isso está a nossa carga histórica enorme mas única. E além disso está contra isso a nossa posição central preponderante, demográfica e economicamente, no centro do nosso bastante pequeno continente mas organizado em múltiplos estados-nação.

Com isto já estou no centro do complexo tema do meu discurso: a Alemanha na Europa, com a Europa e pela Europa.

Razões e origens da integração europeia

Apesar de em alguns poucos dos cerca de 40 Estados europeus a consciência de ser uma nação se ter desenvolvido tardiamente – assim em Itália, na Grécia e na Alemanha – sempre houve em todo o lado guerras sangrentas. Pode-se compreender esta história europeia – observada da Europa Central – como uma
pura sequência de lutas entre a periferia e o centro e vice-versa. Sempre o centro se manteve o campo de batalha decisivo.

Quando os governantes, os estados ou os povos no centro da Europa foram fracos, então os vizinhos da periferia avançaram para o centro. A maior destruição e as relativamente elevadas baixas humanas aconteceram na primeira guerra dos 30 anos entre 1618 e 1648, que se desenrolou fundamentalmente em solo alemão. A Alemanha era, nessa época, simplesmente um conceito geográfico, definido de forma desfocada só pelo espaço da língua alemã. Mais tarde vieram os franceses, sob Luís XIV e de novo sob Napoleão. Os suecos não vieram uma segunda vez; mas sim diversas vezes os ingleses e os russos, a última vez com Stáline.

Mas quando as dinastias ou os Estados eram fortes no centro da Europa – ou quando se sentiram fortes! – então atacaram a periferia. Isto é válido para as cruzadas, que foram simultaneamente cruzadas de conquista não só na direção da Ásia Menor e Jerusalém, mas também na direção da Prússia Oriental e na de todos os três estados bálticos atuais. Na idade moderna é válido para as guerras contra Napoleão e é válido para as três guerras de Bismarck em 1864, 1866 e 1870/71.

O mesmo é válido principalmente para a segunda guerra dos 30 anos de 1914 a 1945. É especialmente válido para os avanços de Hitler até ao Cabo Norte, até ao Cáucaso, até à ilha grega de Creta, até ao sul da França e até mesmo a Tobruk, perto da fronteira líbio-egípcia. A catástrofe europeia, provocada pela Alemanha, incluiu a catástrofe dos judeus europeus e a catástrofe do estado nacional alemão.

Mas antes os polacos, as nações bálticas, os checos, os eslovacos, os austríacos, os húngaros, os eslovenos, os croatas tinham partilhado o destino dos alemães na medida em que todos eles, desde há séculos, tinham sofrido sob a sua posição geopolítica central neste pequeno continente europeu. Ou dito de outra forma: diversas vezes, nós, alemães, fizemos sofrer os outros sob a nossa central posição de poder.

Hoje em dia, as reivindicações territoriais conflituais, os conflitos linguísticos e fronteiriços, que ainda na primeira metade do século XX desempenharam um papel importante na consciência das nações, tornaram-se de facto insignificantes, pelo menos para nós alemães.

Enquanto na opinião pública e na opinião publicada nas nações europeias o conhecimento e a lembrança das guerras da Idade Média se encontram amplamente esquecidos, a lembrança de ambas as guerras do século XX e a ocupação alemã desempenham todavia ainda um papel latente dominante.

Penso ser para nós alemães decisivo que quase todos os nossos vizinhos – e para além disso quase todos os judeus no mundo inteiro – se recordem do holocausto e das infâmias que aconteceram durante a ocupação alemã nos países da periferia. Não está suficientemente claro para nós alemães que provavelmente entre quase todos os nossos vizinhos, ainda por muitas gerações, se mantém uma desconfiança contra os alemães.

Também as gerações alemãs posteriores têm de viver com este peso histórico. E as atuais não devem esquecer: foi a desconfiança com um futuro desenvolvimento da Alemanha que justificou o início da integração europeia em 1950.

Em 1946, Churchill, no seu grande discurso em Zurique, tinha duas razões para apelar aos franceses para se entenderem com os alemães e construírem com ele os Estados Unidos da Europa: em primeiro lugar a defesa conjunta perante a União Soviética, que parecia ameaçadora, mas em segundo a integração da Alemanha numa aliança ocidental alargada. Porque Churchill previa perspicazmente a recuperação económica da Alemanha.

Quando em 1950, quatro anos depois do discurso de Churchill, Robert Schuman e Jean Monnet apresentaram o plano Schuman para a integração da indústria pesada europeia, a razão foi a mesma, a razão da integração alemã. Charles de Gaulle, que dez anos mais tarde propôs a Konrad Adenauer a reconciliação, agiu pelo mesmo motivo.

Tudo isto aconteceu na perspetiva realista de um possível desenvolvimento futuro do poder alemão. Não foi o idealismo de Victor Hugo, que em 1849 apelou à união da Europa, nem nenhum idealismo esteve presente em 1950/52 no início da integração europeia então limitada à Europa Ocidental. Os estadistas dessa época na Europa e na América (nomeio George Marshall, Eisenhower, também Kennedy, mas principalmente Churchill, Jean Monnet, Adenauer e de Gaulle ou também Gasperi e Henri Spaak) não agiram de forma nenhuma por idealismo europeu, mas sim a partir do conhecimento da história europeia até à data. Agiram no juízo realista da necessidade de impedir uma continuação da luta entre a periferia e o centro alemão. Quem ainda não entendeu este motivo original da integração europeia que continua a ser um elemento fundamental, falta-lhe a condição indispensável para solucionar a presente crise altamente precária da Europa.

Quanto mais, durante os anos 60, 70 e 80, a então República Federal ganhava em peso económico, militar e político, mais a integração europeia se tornava aos olhos dos governantes europeus o seguro contra uma nova possível tentação de poder alemã. A resistência inicial de Margaret Tatcher ou de Miterrand ou de Andreotti em 1989/90 contra a unificação dos dois estados alemães do pós-guerra estava claramente fundada na preocupação de uma Alemanha poderosa no centro deste pequeno continente europeu.

Gostaria aqui de fazer um pequeno percurso pessoal. Ouvi Jean Monnet quando participei no seu comité «Pour les États-Unis d’Europe». Foi em 1955. Para mim Jean Monnet é um dos franceses mais perspicazes que eu conheci na minha vida em questões de integração, também por causa do seu conceito de avançar passo a passo na integração europeia.

Desde aí que, por compreender o interesse estratégico da nação alemã, me tornei e me mantive um partidário da integração europeia, um partidário da integração da Alemanha, não por idealismo. (Isto levou-me a uma controvérsia com Kurt Schumacher por mim muito respeitado presidente do meu partido (...))

Levou-me a concordar, nos anos 50, com os planos do então Ministro dos Negócios Estrangeiros polaco Rapacki. No início dos anos 60 escrevi então um livro contra a estratégia oficial ocidental da retaliação nuclear, com que a NATO, na qual ontem como hoje nos encontrávamos integrados, ameaçava a poderosa União Soviética.

A União Europeia é necessária

De Gaulle e Pompidou continuaram nos anos 60, e início dos anos 70, a integração europeia, para integrar a Alemanha – mas também não queriam de maneira nenhuma integrar o seu próprio estado. Depois disso, o bom entendimento entre Giscard d’Estaing e eu próprio, levou a um período de cooperação franco-alemão e à continuação da integração europeia, um período que depois da primavera de 1990 continuou com êxito entre Miterrand e Kohl. Ao mesmo tempo desde 1950/52 que a comunidade europeia cresceu, até 1991, passo a passo de seis para doze membros.

Graças ao amplo trabalho preparatório de Jacques Delors (na altura presidente da Comissão Europeia), Miterrand e Kohl acordaram, em 1991, em Maastricht a moeda comum – o euro – que se tornou realidade dez anos mais tarde, em 2001. De novo na sua origem a preocupação francesa de uma Alemanha demasiado poderosa, mais exatamente de um marco demasiado poderoso.

Entretanto o euro tornou-se na segunda moeda mais importante da economia mundial. Esta moeda europeia é até, quer interna, quer externamente, mais estável do que o dólar americano e mais estável do que o marco foi nos seus últimos dez anos. Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada leviana dos media, de jornalistas e de políticos.

Mas desde Maastricht, desde 1991/92, que o mundo mudou imensamente. Assistimos à libertação das nações do leste europeu e à implosão da União Soviética. Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros «estados emergentes», que antigamente chamávamos «Terceiro Mundo». Simultaneamente, as economias reais de grande parte do mundo «globalizaram-se»: quase todos os estados no mundo dependem uns dos outros. Principalmente, os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-se de um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.

Mas paralelamente, quase sem se dar por isso, a humanidade multiplicou-se de forma explosiva atingindo os 7 mil milhões. Quando nasci eram cerca de 2 mil milhões. Todas estas enormes mudanças tiveram consequências tremendas nos povos europeus, nos seus estados, no seu bem-estar!

Por outro lado, todas as nações europeias envelhecem e por todo o lado desce o número de cidadãos europeus. Em meados do século XXI seremos provavelmente 9 mil milhões de pessoas a viver na Terra, enquanto todas as nações europeias não ultrapassarão os 7%. 7% de 9 mil milhões. Até 1950, os europeus representaram, durante mais de dois séculos, mais de 20% da população mundial. Mas desde há 50 anos que nós europeus diminuímos – não só em números absolutos, mas principalmente em relação à Ásia, África e América Latina. Da mesma forma desce a parte dos europeus no produto social global, isto é na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10%; em 1950 ainda representava 30%.

Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1% da população mundial. Quer dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto. Porque enquanto Estados separados – seja a França, Itália ou Alemanha ou Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia – só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.

Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus na sua cooperação integradora. Este interesse estratégico na integração europeia aumentará em importância cada vez mais. Até agora ainda não está amplamente consciencializado pelas nações. Também os respetivos governos não as consciencializam.

No caso, porém de a União Europeia no decorrer do próximo decénio não conseguir – mesmo que limitada – uma capacidade conjunta de atuação, não é de excluir uma marginalização auto-provocada dos estados e da civilização europeia. Do mesmo modo não se pode excluir, num caso destes, o ressuscitar de lutas concorrenciais e de prestígio entre os estados europeus. Numa situação destas a integração da Alemanha não poderia funcionar. O velho jogo entre centro e periferia podia de novo tornar-se realidade.

O processo mundial de esclarecimento, de propagação dos direitos das pessoas e da sua dignidade, o direito constitucional e a democratização não receberia mais nenhum impulso eficaz da Europa. Nesta perspetiva, a comunidade europeia torna-se uma necessidade vital para os estados nacionais do nosso velho continente. Esta necessidade ultrapassa as motivações de Churchill e de Gaulle. Também ultrapassa as motivações de Monnet e os de Adenauer. E hoje também engloba as motivações de Ernst Reuter, Fitz Ehler, Willy Brandt e também Helmut Kohl.

Acrescento: certamente que também se trata ainda e sempre da integração da Alemanha. Por isso, nós alemães temos de ganhar clareza sobre a nossa tarefa, o nosso papel no contexto da integração europeia.

A Alemanha necessita de constância e fiabilidade

Se no final de 2011 olharmos para a Alemanha com os olhos dos nossos vizinhos mais próximos e mais distantes, desde há um decénio que a Alemanha provoca inquietação – recentemente também preocupação política. Nos últimos anos surgiram dúvidas consideráveis sobre a constância da política alemã. A confiança na garantia da política alemã está abalada.

Estas dúvidas e preocupações assentam também nos erros de política externa dos nossos políticos e governos. Por outro lado baseiam-se no, para o mundo inesperado, poder económico da República Federal unificada. A nossa economia tornou-se – iniciando nos anos 70, nessa época ainda dividida – na maior da Europa. Tecnológica, financeira e socialmente é hoje uma das economias mais eficientes do mundo. O nosso poder económico e a nossa, em comparação muito estável, paz social desde há decénios também provocaram inveja – tanto mais que a nossa taxa de desemprego e a nossa dívida se encontram dentro da normalidade internacional.

No entanto, não nos é suficientemente claro que a nossa economia esteja profundamente integrada no mercado comum europeu, quer em grande medida globalizada e assim dependente da conjuntura mundial. Iremos assim assistir como, no próximo ano, as nossas exportações não aumentarão significativamente.

Mas simultaneamente desenvolveu-se um grave erro, nomeadamente os enormes excedentes da nossa balança comercial. Desde há anos que os excedentes representam 5% do nosso PIB. São comparáveis aos excedentes da China. Isto não nos é completamente claro porque os excedentes não se contabilizam em marcos, mas em euros. Mas é necessário que os nossos políticos consciencializem esta circunstância.

Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. As exigências que temos com os outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violação irritante do que nós consideramos um elevado ideal legal do «equilíbrio da economia externa». Esta violação tem de inquietar os nossos parceiros. E quando ultimamente aparecem vozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas – entretanto vêm de muitos lados – que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, então isso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações.

Esta evolução económica e a simultânea crise da capacidade de ação dos órgãos da união europeia empurraram de novo a Alemanha para um papel central. A chanceler aceitou solícita este papel juntamente com o presidente francês. Mas há, de novo, em muitas capitais europeias e também em muitos media uma crescente preocupação com o domínio alemão. Desta vez não se trata de uma potência militar e política central, mas sim de um potente centro económico!

Aqui é necessário uma séria, cuidadosamente equilibrada advertência aos políticos alemães, aos media e à nossa opinião pública.

Se nós alemães nos deixássemos seduzir, baseados no nosso poder económico, por reivindicar um papel político dirigente na Europa ou pelo menos desempenhar o papel de primus inter pares, então um número cada vez maior dos nossos vizinhos resistiria eficazmente. A preocupação da periferia europeia com um centro da Europa demasiado forte regressaria rapidamente. As consequências prováveis de uma tal evolução seriam atrofiadoras para a UE. E a Alemanha cairia no isolamento.

A República Federal da Alemanha, muito grande e muito eficaz, precisa – também para se defender de si própria! – de se encaixar na integração europeia. Por isso desde os tempos de Helmut Kohl, desde 1992 que o artº 23º da Constituição nos obriga a colaborar «... no desenvolvimento da União Europeia». Este artº 23º obriga-nos a esta cooperação também no «princípio da subsidiariedade...». A crise atual da capacidade de ação dos órgãos da UE não muda em nada estes princípios.

A nossa posição geopolítica central, mais o papel infeliz no decorrer da história europeia até meados do século XX, mais a nossa capacidade produtiva atual, tudo isto exige de todos os governos alemães uma grande dose de compreensão dos interesses dos nossos parceiros na EU. E a nossa prestabilidade é indispensável.

Nós, alemães, também não conseguimos sozinhos a grande reconstrução e capacidade de produção nos últimos 6 decénios. Elas não teriam sido possíveis sem a ajuda das potências vencedoras ocidentais, sem a nossa inclusão na comunidade europeia e na aliança atlântica, sem a ajuda dos nossos vizinhos, sem a mudança política na Europa de leste e sem o fim da ditadura comunista. Nós, alemães, temos razões para estarmos gratos. E simultaneamente temos a obrigação de nos mostramos dignos da solidariedade através da solidariedade com os nossos vizinhos!

Pelo contrário, ambicionar um papel próprio na política mundial e ambicionar prestígio político mundial seria bastante inútil, provavelmente até prejudicial. Em todo o caso, mantém-se indispensável a estreita cooperação com a França e a Polónia, com todos os nossos vizinhos e parceiros na Europa.

É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha a longo prazo, não se isolar e não se deixar isolar. Um isolamento no espaço do ocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da EU ou da zona euro seria ainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugar inequivocamente mais importante do que qualquer interesse tático de todos os partidos políticos.

Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever de defender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública.

Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão na Europa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa que aparições adequadas nas televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantes do que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, Haia Copenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» - então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.

Na verdade, a Alemanha foi durante longos decénios pagador líquido! Podíamos fazê-lo e fizemo-lo desde Adenauer. E naturalmente que Grécia, Portugal ou Irlanda foram sempre recebedores líquidos.

Esta solidariedade talvez não seja hoje suficientemente clara para a classe política alemã. Mas até agora foi evidente. Também evidente – e para além disso desde Lisboa incluído no tratado – o princípio da subsidiariedade: aquilo que um estado não pode ou não consegue resolver, tem de ser assumido pela UE.

Desde o plano Schuman que Konrad Adenauer aceitou, por instinto político acertado, a oferta francesa contra a resistência quer de Kurt Schumacher, quer de Ludwig Erhard. Adenauer avaliou corretamente o interesse estratégico de longo prazo da Alemanha – apesar da divisão da Alemanha! Todos os sucessores – assim também Brandt, Schmidt, Kohl e Schröder – prosseguiram a política de integração de Adenauer.

Todas as táticas da ordem do dia, da política interna ou da política externa nunca questionaram o interesse estratégico alemão de longo prazo. Por isso todos os nossos vizinhos e parceiros puderam confiar, durante decénios, na constância da política europeia alemã – e na verdade independentemente de todas as mudanças de governo. Esta continuidade mantém-se conveniente também no futuro.

A situação atual da EU exige energia

As contribuições conceptuais alemãs foram sempre naturais. Também se deve manter assim no futuro. No entanto não devíamos antecipar o futuro longínquo. Mudanças no tratado, mesmo assim, só poderiam corrigir em parte erros e omissões na realidade criada há vinte anos em Maastricht. As propostas atuais para as mudanças no Tratado de Lisboa em vigor não me parecem muito úteis para um futuro próximo, se nos lembrarmos das dificuldades até agora com todas as diversas ratificações nacionais, ou nos referendos com resultados negativos.

Concordo por isso com Napolitano, o Presidente italiano, quando, num notável discurso em Outubro exigiu que nós hoje nos temos de concentrar no que é necessário hoje fazer. E que para isso temos de esgotar as possibilidades que os tratados em vigor nos proporcionam – especialmente o reforço das regras orçamentais e da política económica na zona Euro.

A atual crise da capacidade de ação dos órgãos da EU criados em Lisboa, não pode continuar! Com a exceção do BCE, todos os órgãos – Parlamento Europeu, Conselho Europeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros – todos eles, desde a superação da aguda crise dos bancos de 2008 e especialmente da consequente crise da dívida soberana, contribuíram pouco para uma ajuda eficaz.

Não há nenhuma receita para a superação da atual crise de liderança na EU. Serão necessários vários passos, alguns simultâneos, outros consecutivos. Não serão só necessárias, capacidade de análise e energia, mas também paciência! Nisso as contribuições concepcionais alemãs não se podem reduzir a chavões. Não devem ser apresentadas na praça televisiva, mas em vez disso confidencialmente nos grémios dos órgãos da EU. Os alemães não devem apresentar como exemplo ou medida de toda as coisas aos nossos parceiros europeus, nem a nossa ordem económica ou social, nem o nosso sistema federal, nem a nossa política constitucional orçamental ou financeira, mas sim simplesmente enquanto exemplo entre várias outras possibilidades.

Todos nós em conjunto somos responsáveis pelos efeitos futuros na Europa por tudo o que hoje a Alemanha faz ou deixa de fazer. Precisamos de razoabilidade europeia. Mas não precisamos só de razoabilidade, mas também de um coração compreensivo com os nossos vizinhos e parceiros.

Concordo num ponto importante com Jürgen Habermas, que recentemente referiu que – e cito - «...na realidade assistimos agora pela primeira vez na história da EU a uma desmontagem da Democracia!!» (fim da citação). De facto: não só o Conselho Europeu, incluindo o seu Presidente, também a Comissão Europeia, incluindo o seu Presidente e os diversos Conselhos de Ministros e toda a burocracia de Bruxelas marginalizaram em conjunto o princípio democrático! Eu caí no erro, na época em que introduzimos a eleição para o Parlamento europeu, de pensar que o Parlamento conseguiria o seu peso próprio. Na verdade até agora não teve nenhuma influência reconhecível na superação da crise, já que as suas discussões e resoluções não têm até agora nenhum resultado público.

Por isso quero apelar a Martin Schulz: é tempo de o senhor e os seus colegas democratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes, em conjunto mas de forma drástica, conseguirem ser ouvidos publicamente. Provavelmente o campo da totalmente insuficiente fiscalização sobre os bancos, bolsas e os seus instrumentos financeiros, desde o G20 em 2008, adequa-se na perfeição para um tal levantamento do Parlamento Europeu.

Realmente alguns milhares de brookers nos EUA e na Europa, mais algumas agências de notação tornaram reféns os governos politicamente responsáveis na Europa. Não é de esperar que Barack Obama possa vir fazer muito contra isso. O mesmo é válido para o governo britânico. Realmente, os governos do mundo inteiro salvaram, na verdade, os bancos em 2008/09 com as garantias e o dinheiro dos impostos dos cidadãos. Mas já em 2010, esta manada de executivos financeiros, altamente inteligentes e simultaneamente propensos à psicose, jogava, de novo, o seu velho jogo do lucro e das bonificações. Um jogo de azar e em prejuízo dos que não são jogadores, que eu e Marion Dönhoff já nos anos 90 criticámos como muito perigoso.

Já que ninguém quer agir, então os participantes da zona Euro têm de o fazer. Para isso o caminho pode ser o do artº 20º do Tratado de Lisboa em vigor. Aí prevê-se expressamente, que Estados-membros sós ou em conjunto «estabeleçam entre eles uma cooperação reforçada». Em todo o caso, os Estados membros da zona euro deveriam impor uma regulação enérgica do seu mercado financeiro comum. Desde a separação entre, por um lado, os normais bancos de negócios e, por outro, os bancos de investimento e bancos sombra até à proibição da venda de derivados, desde que não autorizados pela fiscalização oficial da Bolsa - até à restrição eficaz dos negócios das, por enquanto, não fiscalizadas agências de notação no espaço da zona euro. Não quero, minhas senhoras e meus senhores, aborrecê-los com mais detalhes.

Naturalmente que o globalizado lobby dos banqueiros iria empregar todos os meios contra. Já conseguiu até agora impedir toda a regulamentação eficaz. Possibilitou para si mesmo que a manada dos seus brookers tenha colocado os governos europeus na situação difícil de ter de inventar sempre novos «fundos de estabilização» e alargá-los através de «alavancas». É tempo de resistir. Se os europeus conseguirem ter a coragem e a força para uma regulação eficaz dos mercados financeiros, então podemos no médio prazo tornarmo-nos numa zona de estabilidade. Mas se falharmos, então o peso da Europa continuará a diminuir – e o mundo evolui na direção de um Duovirato entre Washington e Pequim.

Seguramente que para o futuro próximo da zona euro todos os passos anunciados e pensados até agora são necessários. Deles fazem parte os fundos de estabilização, o limite máximo de endividamento e o seu controlo, uma política económica e fiscal comum, deles fazem parte uma série de reformas nacionais na política fiscal, de despesa, na política social e na política laboral. Mas forçosamente, também uma dívida comum será inevitável. Nós, alemães, não nos devemos recusar por razões nacionais e egoístas.
Mas de forma nenhuma devemos propagar para toda a Europa uma política extrema de deflação. Razão tem Jacques Delors quando exige, em conjunto com o saneamento do orçamento, a introdução e financiamento de projetos que fomentem o crescimento. Sem crescimento, sem novos postos de trabalho, nenhum Estado pode sanear o seu orçamento. Quem acredita que a Europa pode, só através de poupanças orçamentais, recompor-se faça o favor de estudar o resultado fatal da política de deflação de Heinrich Brüning em 1930/32.
Provocou uma depressão e um desemprego de uma tal dimensão que deu início à queda da primeira democracia alemã.

Aos meus amigos

Terminemos, queridos amigos! No fundo, não é preciso pregar solidariedade internacional aos sociais-democratas. A social-democracia é desde há século e meio internacionalista – em muito maior medida do que gerações de liberais, de conservadores ou de nacionalistas alemães. Nós, sociais-democratas, não abdicámos da liberdade e da dignidade de cada ser humano. Simultaneamente não abdicámos da democracia representativa, da democracia parlamentar. Estes princípios obrigam-nos hoje à solidariedade europeia.

De certo que a Europa, também no século XXI, será constituída por estados nacionais, cada um com a sua língua e a sua própria história. Por isso a Europa não se tornará de certeza num Estado Federal. Mas a UE também não pode degenerar numa mera aliança de estados. A UE tem de se manter uma aliança dinâmica, em evolução. Não há em toda a história da humanidade nenhum exemplo. Nós, social-democratas, temos de contribuir para a evolução passo a passo desta aliança.

Quanto mais envelhecemos, mais pensamos em períodos longos. Também enquanto homem velho me mantenho fiel aos três princípios do Programa de Godesberg: liberdade, justiça, solidariedade. Penso, a propósito, que hoje a justiça exige antes de mais igualdade de oportunidades para as crianças, para estudantes e jovens.

Quando olho para trás, para 1945 ou posso olhar para 1933 – tinha acabado de fazer 14 anos – o progresso que fizemos até hoje parece-me quase inacreditável. O progresso que os europeus alcançaram desde o Plano Marshall, 1948, desde o Plano Schuman, 1950, graças a Lech Walesa e ao Solidarnosz, graças a Vaclav Havel e à Charta 77, que agradecemos àqueles alemães em Leipzig e Berlim Oriental desde a grande mudança em 1989/91.

Não podíamos imaginar nem em 1918, nem em 1933, nem em 1945 que hoje uma grande parte da Europa se regozija pelos Direitos Humanos e pela paz. Por isso mesmo trabalhemos e lutemos para que a UE, historicamente única, saia firme e autoconfiante da sua presente fraqueza.

© SPD 2011

[A tradução é deficiente e introduzi algumas correções mas, no conjunto, o texto é apreensível e por isso, atento o seu interesse intrínseco, e atualidade, o publico.]